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Um dos destaques mais óbvios é a música. Se a caracterização de uma certa era no rock, era a base para contar esta história de coming of age, as canções escolhidas, dão ao filme o perfeito equilíbrio entre o mundo da música e o sentimento do filme. Aliás como é uma constante nos filmes de Crowe, é sempre notório a paixão que ele tem pela música, e a sua capacidade para usar esse gosto nas suas histórias. Mas este não é a única marca de Crowe presente no filme. A ternura que consegue, através de personagens muito bem caracterizadas, bons diálogos e uma boa capacidade para não forçar a realização na apreciação do filme, não optando por planos demasiado estilizados, e concentrando atenções nos personagens.




Um dos melhores méritos do realizador (Vittorio de Sica) é conseguir, com uma história simples, e filmado de uma forma muito realista e sem grandes artifícios, directa e sem grande preparação, fazer com que o espectador sinta muito pelas personagens e simpatize com elas, dando um coração enorme a este pequeno filme. É incrível como aos 20 minutos de filme, e sem ter havido um grande desenvolvimento de personagens, a cena do roubo, tenha um impacto tão grande na empatia com Ricci. Estamos todos á espera que o ladrão fuja, mas não há ninguém que não sinta uma grande aflição pela angustia do personagem principal. Isto só demonstra uma terrível eficácia na forma como a história é apresentada. A própria interpretação de Lamberto Maggiorani, um actor não profissional, que acabou por trabalhar outras vezes com De Sica, é extremamente humana, mais real do que Ricci, só mesmo fora do cinema. Mesmo datando de 1948 acreditamos perfeitamente que ele é uma pessoa como qualquer outra na altura que passa por aquelas dificuldades.


Gostaria também de realçar a banda sonora. Simplesmente brilhante. Sempre muito presente durante todo o filme, e mesmo em momentos em que talvez fosse preferível termos silêncio, facilmente o esquecemos devido á beleza sonora que nos invade e acaba por ser fundamental na ligação emocional que temos á história.
1931, é a data deste filme, 4 anos após o som, e numa altura onde linguagem de cinema ainda estava a ser inventada. Não surgiam todos os anos, thrillers criminais, não se refazia sempre a mesma coisa, e este é em muitos aspectos, dos primeiros do seu género, e há quem diga, o pai de dois géneros, o policial e serial killer. M é um assassino de crianças em Dusseldorf, que causa um crescente clima de tensão generalizado pela cidade. Cidade muito particularmente caracterizada pela instabilidade social, atmosfera decadente, pobre e atormentada. Todos procuram o assassino, a Policia, pressionada pela obtenção de resultados, o submundo do crime, incapaz de funcionar num estado policial e o cidadão comum, inseguro e acusatório. O enredo do filme é bom, próprio de um grande filme policial, e com todos os elementos necessários á criação do suspanse que o envolve. Os personagens são do melhor que se vê nesta altura, sem grande historial mas muito característicos e originais, e os desempenhos dos actores igualmente acima do que se via na altura, demonstrando também qualidade na direcção de actores do realizador. Não é tão exuberante e over-acted como normalmente os filmes eram nesta altura. Como o cinema ainda não tinha uma grande bagagem historial, normalmente era necessário mostrar demasiado as emoções para ser melhor compreendido. Mas o que surpreende mais neste filme é o facto de ser inventado linguagem narrativa, não só temática, que ainda hoje se vê no cinema. Filmes como Zodiac, Silencio dos Inocentes, ou até mesmo No Country for Old Men tiveram em M a base de todo um formalismo que hoje tão facilmente reconhecemos e aceitamos como norma. Por isto podemos considerar M um filme adulto numa altura onde o cinema ainda era adolescente. Fritz Lang é sem dúvida nenhuma um visionário do cinema, ele conseguiu imaginar uma história e soube como contá-la usando da melhor forma a câmara. Em 1931 usar planos de corte no movimento, travellings subjectivos do personagem (dos primeiros que me lembro de ver), narrativa em paralelo, acção fora de plano e diálogos por cima outro plano visual são métodos que hoje em dia são fáceis de usar e bastante vistos por muitos anos, mas Fritz Lang de certa forma ajudou a criar tudo isso. È como ter palavras, ter algo para dizer, e juntar tudo criando literatura, neste caso cinematográfica. Até um plano que hoje em dia é normal, como um personagem desaparecer com a passagem de um carro á frente da câmara acontece em M. Lang não só inventa linguagem como sabe como e quando usa-la e prova disso é a aproximação que ele faz da câmara sobre os seus personagens no momento perfeito, ele sabe a importância do timing na mente do espectador, e isto é saber como contar uma história. Quem se lembraria em 1931 de fazer um corte com um personagem num local a fazer um movimento com o braço para o mesmo movimento de outro personagem noutro local.
M peca por vezes no ritmo de montagem que atrasa por vezes um plano ou outro, mas é pecado facilmente perdoado e esquecido pois não se esperaria que o filme fosse de rápido desenvolvimento, não que ele seja lento. A nível de temática, de destacar o clima sombrio, a complexidade da história a envolver o assassino, a policia, a máfia, e até uma organização de mendigos desempenha uma parte importante para o desenrolar da história e captura deste personagem altamente perturbado. M é representativo de uma sociedade moral, e a importância da sua captura é uma reflexão social sobre justiça. O personagem que até nem tem grande tempo de ecrã (embora todo o tempo que tenha seja brilhante), mas os elementos que o rodeiam é que contam esta história e dão uma imagem muito negra de um tempo na Alemanha onde valores éticos e morais começariam a ter grande importância e que marcariam o resto do século. Posso afirmar com toda a certeza que M não é o melhor filme que já vi, tanto menos o melhor thriller, mas é sim, das melhor lições de história do cinema que já tive, e que aqui é possível ver como se forma uma linguagem e bases para uma cultura que duram e continuaram a durar, não só para este género, por muito e muito tempo.
Mas um elemento novo até aqui em Shyamalan é o humor. Num filme em que há momentos de grande tensão, ele consegue ter elementos de grande lucidez cómica desanuviando um bocado essa intensidade, aspecto que resulta muito bem se tivermos em conta que este é dos seus filmes mais “sci-fi” e para não se levar demasiado a sério em certos momentos de irrealismo. Mas apesar disso não deixamos de nos sentir ligados emocionalmente, muito pelo contrario. É nos momentos de verdadeira tensão que não deixamos de estar ligados a estas personagens.



O escritor, cujos créditos configuram vários episódios de Star Trek e The Twillight Zone, Jerome Bixby, decide trazer-nos um filme cuja sua originalidade e ambição, embora de louvar, peca apenas por pormenores. The Man from Earth é um filme que na sua apreciação pode parecer simples, e de uma forma conceptual até acaba por sê-lo, mas a complexidade dos seus diálogos e absorção que causam no espectador, fazem com que o filme valha praticamente a pena só pelo guião. Não sem falhas, e falhas que prejudicam a ambição do filme, mas é sempre bom quando estamos perante algo que pode ser feito com muitos poucos meios, e em muito pouco tempo, e ainda ser capaz de trazer muito mais que algumas das mais caras produções. Quanto á história em si, não há muito a dizer sem estragar um bocado a surpresa inicial que o filme nos reserva, mas um grupo de amigos reúne-se com o personagem principal para se despedirem dele, e o filme mostra-nos essa reunião, onde eles acabam por conhecer uma faceta do seu amigo que desconheciam.
Richard Schenkman, o realizador, que não tem grandes créditos firmados no seu currículo, opta por uma abordagem que, e com todo o mérito, consegue em momentos vitais, cativar com pequenos movimentos de câmara sobre os seus personagens e sem grandes artifícios. Mas com um guião tão económico pedia-se uma visão das personagens que acrescentasse mais do que o guião oferece, uma vez que a grande falha deste é a caracterização das personagens optando por alguns clichés em virtude de uma dimensão tão inovadora quanto o enredo. Alguns dos actores acabam por disfarçar esta questão com uma caracterização que nos mostra algo mais em certas personagens, mas mesmo neste capitulo, a maioria deles, simplesmente não tem a categoria e classe para conseguir carregar o filme em direcção à intensidade e originalidade desejada. A excepção são John Billingsley que já vimos como guest em várias séries de TV recentes, e muito embora tenha sempre um registo muito igual, enquadra-se bem no filme pela curiosidade que emprega à conversa permitindo com que o resto dos personagens se mantenham imersos no diálogo de uma forma credível, e David Lee Smith, também com várias participações em TV embora mais discreto, tem aqui uma interpretação muito contida e diferente do que seria de esperar para a dimensão que “John Oldman” tem no filme.
Este é sem dúvida um filme bastante interessante, caso tratar-se de uma produção que não teria de ser necessariamente maior, mas simplesmente mais bem trabalhada e cuidada, estaríamos certamente perante algo de bastante original. Ainda assim fica um exercício em bons diálogos que chegam para nos deixar pregados ao sofá sem pausas durante esta conversa de hora e meia.
